quarta-feira

Muito Amor, eu quero

O mínimo que eu espero de um amor é ele seja tanto e tão forte que enquanto eu não estiver por perto, ele se sinta vazio, como se o mais importante da vida estivesse suspenso.

Eu quero um amor que não tenha a menor dúvida de que eu sou a pessoa mais importante do mundo.
Que perceba uma diferença gritante entre estar comigo e estar só.
Que goste de ficar perto de mim e que faça questão de me tocar sempre que possível.
Que adormeça aconchegado no meu colo e, de vez em quando, acorde e olhe bem fixamente para mim, só para se certificar de que toda aquela felicidade de estar ali é mesmo real e possível. Quero alguém que, às vezes me acorde, às vezes fique simplesmente velando meu sono e esperando o momento mágico que vai ser aquele em que eu acordar.

Eu quero um amor que fique impaciente, andando de um lado para o outro, enquanto eu tomo um banho demorado ou troco de roupa. Simplesmente porque não vê a hora de sentir meu cheiro e de ter minha companhia de volta.

Eu quero um amor que, ao pressentir que eu vou embora, comece a me cercar e me implorar para ficar mais.
Que fique feliz em aprender comigo coisas importantes e bobagens.
Que quando eu apareça, ele tenha uma descarga tão forte de alegria a ponto dela ser notada em todas as partes do corpo. Tipo aquela expressão: amor saindo pelas orelhas.

Eu quero um amor que dedique horas do dia para me fazer feliz.


Quem tem cachorro fica com o nível de exigência de amor muito alto.

Da série: Quadrinhos na Web


...bota sacanagem, nisso!

domingo



Passeia

.tua

.boca

em

mim

até

me

calar

(Jorge Vercilo)


(foto retirada do site: http://dhararubens-sensual.blogspot.com/)

sábado

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O ÚNICO SILENCIO QUE PERTUBA, É
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AQUELE QUE FALA. E FALA ALTO...
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Eu acredito em Deus.
Mas não sei se o Deus em que acredito é o mesmo Deus em que você, que me le agora acredita, ou o balconista, a professora, o porteiro aqui do prédio. O Deus em que acredito não foi globalizado.
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O Deus com quem converso não´é uma pessoa, não é pai de ninguém. É uma idéia, uma energia, uma eminência. Não tem rosto, portanto não tem barba. Não caminha, portanto não carrega um cajado. Não está cansado, portanto não tem trono.
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O Deus que me acompanha não é bíblico. Jamais se deixaria resumir por dez mandamentos, algumas parábolas e um pensamento que não se renova. O meu Deus é tão superior quanto o Deus dos outros, mas sua superioridade está na compreensão das diferenças, na aceitação das fraquezas e no estímulo à felicidade.
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O Deus em que acredito me ensina a guerrear conforme as armas que tenho e detecta em mim a honestidade dos atos. Não distribui culpas a granel: as minhas são umas, as do meu vizinho são outras, e nossa penitência é a reflexão. Ave-Maria, pai-nosso, isso qualquer um decora sem saber o que está dizendo. Para o Deus em que acredito, só vale o que se está sentindo.
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O Deus em que acredito não condena o prazer. Se ele não tem controle sobre enchentes, guerrilhas e violência e sobre tudo sobre a violência com crianças, se não tem controle sobre traficantes, corruptos e vigaristas, se não tem controle sobre a miséria, o câncer e as mágoas, então que Deus seria ele se ainda condenasse o que nos resta: o lúdico, o sensorial, a libido que nasce com toda criança e se desenvolve livre, se assim o permitirem?
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O Deus em que acredito não é tão bonzinho: me castiga e me deixa uns tempos sozinha. Não me abandona, mas me exige mais do que uma visita na igreja, uma flexão de joelhos e uma doação aos pobres: cobra caro pelos meus erros e não aceita promessas performáticas, como carregar uma cruz gigante nos ombros. A cruz pesa onde tem que pesar: dentro. é onde tudo acontece e tudo se resolve.
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Este é o Deus que me acompanha. Um Deus simples. Deus que é Deus não precisa ser difícil e distante, sabe-tudo e vê-tudo. Meus Deus é discreto e otimista. Não se esconde, ao contrário, aparece principalmente nas horas boas para incentivar, para me fazer sentir o quanto vale um pequeno momento grandioso: uma abraço numa amiga, uma música na hora certa, um silêncio. É onipresente, mas não onipotente.
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Meus Deus é humilde. Não posso imaginar um Deus repressor e um Deus que não sorri. Quem não te sorri não é cúmplice.
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terça-feira

Quanto Mais Vela Mais Acesa

Um dia quando eu não menstruar mais
vou ter saudade desse bicho sangrador mensal
que inda sou,
que mata os homens de mistério.

Vou ter saudade desse lindo aparente impropério,
desse império de gerações absorvidas.
Desse desperdício de vidas
que me escorre agora mês de maio.

Ensaio: Nesse dia
vou querer a vida
com pressa,
menos intervalo entre uma frase e outra,
menos res-piração entre um fato e outro,
menos intervalos entre um impulso e outro,
menos lacunas entre a ação e sua causa
e se Deus não entender, rezarei:
Menos pausa, meu Deus,
menos pausa.

sábado

Só Amar Não Basta...

Por mais que o poder e o dinheiro tenha conquistado uma ótima posição no ranking das virtudes, o amor ainda lidera com folga. Tudo o que todos querem é amar. Encontrar alguém que faça bater forte o coração e que justifique loucuras. Que nos faça entrar em transe, cair de quatro, babar na gravata. Que nos faça revirar os olhos, rir à toa, cantarolar dentro de um ônibus lotado. Tem algum médico aí??

Depois que acaba essa paixão retumbante, sobra o quê? O amor. Mas não o amor mitificado, que muitos julgam ter o poder de fazer levitar. O que sobra é o amor que todos conhecemos: o sentimento que temos por mãe, pai, irmão, filhos e amigos. É tudo o mesmo amor, só que entre amantes existe sexo. Não existem vários tipos de amor, assim como não existem três tipos saudade, quatro tipo de ódio, seis espécies de inveja. O amor é único, como qualquer sentimento, seja ele destinado a familiares, ao cônjuge, ou a Deus. A diferença é que, como entre marido e mulher não há laços de sangue, a sedução tem que ser ininterrupta. Por não haver nenhuma garantia de durabilidade, qualquer alteração no tom de voz nos fragiliza, e de cobrança em cobrança acabamos por sepultar uma relação que poderia se eterna.

Casaram. Te amo para lá, te amo para cá. Lindo, mas insustentável. O sucesso de um casamento exige mais do que declarações românticas. Entre duas pessoas que resolvem dividir o mesmo teto tem que haver muito mais que amor, e às vezes nem necessita um amor tão intenso. É preciso que haja, antes de mais nada, respeito. Agressões zero. Disposição para ouvir argumentos alheios. Alguma paciência. Amor, só, não basta.

Não pode haver competição. Nem comparações. Tem que ter jogo de cintura para acatar regras que não foram previamente combinadas. Tem que haver bom humor para enfrentar imprevistos, acessos de carência, infantilidades. Tem que saber relevar. Amar, só, é pouco.

Tem que haver inteligência. Um cérebro programado para enfrentar tensões pré-menstruais, rejeições, demissões inesperadas, contas pra pagar. Tem que ter disciplina para educar filhos, dar exemplo, não gritar. Tem que ter um bom psiquiatra. Não adianta, apenas, amar.

Entre casais que se unem visando a longevidade do matrimônio tem que haver um pouco de silêncio, amigos de infância, vida própria, independência, um tempo para cada um. Tem que haver confiança. Uma certa camaradagem: às vezes fingir que não viu, fazer de conta que não escutou. É preciso entender que união não significa, necessariamente, fusão. E que amar, solamente, não basta.

Entre homens e mulheres que acham que o amor é só poesia tem que haver discernimento, pé no chão, racionalidade. Tem que saber que o amor pode ser bom, pode durar para sempre, mas que sozinho não dá conta do recado. O amor é grande mas não é dois. É preciso convocar uma turma de sentimentos para amparar esse amor que carrega o ônus da onipotência. O amor até pode nos bastar, mas ele próprio não se basta.
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sexta-feira




sábado

Madame Bovary

"... Ele abandonou o último resquício de reserva e consideração.

Transformou-a em algo complacente, corrupto. "


(uma referencia sexual do livro - Madame Bovary)

sexta-feira

Mudanças dos Ventos











Ah vem cá meu menino,

Pinta e borda comigo

Me revista, me excita

Me deixa mais bonita











Ah, vem cá meu menino,

Do jeito que imagino

Me tira essa canseira

Me tira essas olheiras

De esperar tanto tempo

A mudança dos ventos

Prá eu me sentir com forças

Prá eu me sentir mais moça











Ah! vem cá meu menino,

Pinta e borda comigo

Me revista, me excita,

Me deixa mais bonita











Ah! vem cá meu menino,

Do jeito que imagino,

Me tira essa vergonha

Me mostre, me exponha

Me tire uns vinte anos

Deixa eu causar inveja

Deixa eu causar remorsos

Nos seus, nos meus, nos nossos.


( Ivan Lins & Vitor Martins )

quinta-feira

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Sou uma mulher
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que quer sempre mais
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e confundo mesmo
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ternura com eternidade
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segunda-feira

Mulher de Um Homem Só

Ela é como urso panda, está quase extinta do planeta. Quando alguém a ouve dizendo “sou mulher de um homem só”, corre para o celular mais próximo e chame a imprensa para documentar. Quem é, afinal, essa mulher tão rara?

A mulher de um homem só casou virgem com escritor que detesta badalação. A última festa em que ele compareceu foi a do seu próprio casamento, a contra-gosto. Ele só gosta de música barroca, uísque e poesia. Não quis ter filhos. É um homem terrivelmente só que se casou apenas para que alguém cozinhasse pra ele, pois odeia restaurantes.

A mulher do homem só tenta animá-lo. Convida-o para subir a serra e comer um fondue. O homem faz que não com a cabeça. A mulher convida para ir a uma feira de antiguidades. Ele dá um sorriso sarcástico. Ela convida para ir na Casa Cor . Ele tem espasmos. Ela convida para um teatro. Ele pega no sono antes que ela diga o nome da peça.

O homem só gosta de ficar em casa. Não vai ao cinema, nem a parques, nem a bares. Não visita ninguém. Não votou na última eleição. Não comparece às reuniões de condomínio. Tem alergia a gente.

A mulher do homem só tentou festejar os 50 anos dele. Convidou os poucos conhecidos do marido: um irmão, o editor e a mulher dele. Comprou cerveja, colocou CD do Paulinho da Viola e flores nos vasos. Os convidados chegaram e se foram sem ouvir a voz do homem só. Ele apenas resmungou um obrigado quando recebeu um livro do editor e disse qualquer coisa inaudível ao ganhar meias do irmão. Passou calado a noite inteira. Quando pediu licença para ir ao banheiro, não voltou mais.

A primeira vez que a mulher do homem só disse “sou mulher de um homem só” foi para o motorista de taxi, que ficou impressionado. Ela era jovem, bonita, mas tinha uma tristeza comovente no olhar. Era última corrida dele e, impulsivamente, convidou-a para uma caipirinha. Ela aceitou e, pela primeira vez em muitos anos, teve uma noite animada.

A segunda vez que ela disse “sou mulher de um homem só” foi para o vizinho do sexto andar. Estavam sozinhos no elevador e ele fingiu não ouvir. Nunca haviam trocado nem um bom-dia, quando mais uma confidência. Mas ela repetiu: “sou mulher de um homem só” . Desta vez falou de um jeito tão carente que ele se viu obrigado a tomar uma providência. O sexto andar acabou malfado no prédio.

A mulher do homem só, então, passou a ter a agenda cheia: o professor de computação, o gerente do banco, o dono do posto de gasolina. Vivia para cima e para baixo com seus novos amigos: cinema, shopping, vernissages. Não corria o risco de encontrar o marido em nenhum desses lugares. Começou a usar decotes, maquiagem e ria alto. Nunca se sentia tão feliz. Surgia cada dia com um parceiro diferente nas festas, nas inaugurações de lojas, nos passeios pelo mercado público. Ganhou má fama. E quando mais o povo falava, mais ela desdenhava. Ninguém fazia a idéia do que era ser mulher de um homem só.



(Jornal Zero hora - M.Medeiros)

terça-feira


segunda-feira

A visita - VERISSIMO

O Marquês de Sade faz uma reverência quase até o chão. Está recebendo Leopold von Sacher-Masoch para chá em sua residência.

- Meu caro von Masoch! Que honra recebê-lo em meu humilde chateau!

-Meu caríssimo Marquês. Enfim, nos encontramos!

- Deixe-me tirar esse pesado casaco de farpas que carregais sobre a pele.

- Pode deixar, eu gosto assim.

- Entrai, entrai.

von Masoch entra no salão principal e Põe-se a examinar a decoração.

- Que bela coleção de miniaturas! Oh, uma guilhotina de dedo. Funciona?

- Experimente.

Zupt!

- Charmat! – diz von Masoch, mostrando o toco do dedo decepado.

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- Querido von Masoch, por que nunca nos encontramos antes?

- Talvez porque não somos contemporâneos. Você é de quando?

- 1740 a 1814. Você?

- 1835 a 1895.

- Seria mesmo difícil. Mais razão para desfrutarmos este encontro fictício. Sente-se.Sente-se.

- Uma cadeira de pregos! Senhor Marquês!

- Mandei prepará-la especialmente para sua visita...

- A manisfestação mais alta do espírito humano é a hospitalidade.

- A fidalguia obriga.

- Retribuirei sofrendo, para o vosso deleite.

- Não esperava outra coisa de uma sensibilidade tão nobre.

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
- A cadeira está suficientemente desconfortável, herr von Masoch?

- Sim. Perfeita. Obrigado.

- Como querei vosso chá?

- Fervendo.

O Marquês prepara-se para servir o chá, mas von Masoch recusa a xícara.

- Pode ser na mão mesmo.

O Marquês despeja chá fervendo na mão do visitante, que geme.

- Aaaahnnn... Obrigado. Está delicioso, De alguma forma, eu sabia que você seria o anfitrião perfeito.

- Posso oferecer, a seguir, canapés, éclairs ou chicotadas.

- Chicotadas, por favor.

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Sade e Masoch, finalmente juntos. De certa maneira, somos a dupla definitiva. Uma síntese humana, nos extremos da paixão. O prazer de dominar, o prazer de ser dominado. O êxtase de ser soberano, o êxtase de ser submisso. Pode-se dizer que a História da humanidade não passa de um minueto metafórico que dançamos juntos, através dos tempos.

- Essas chicotadas...são para agora?

- Somos o egoísmo humano na sua forma pura, além do bem e do mal. Somos a racionalização dos instintos, e a bestificação da razão. Chegamos à extrema lucidez do homem, que é reconhecer nas suas próprias taras o que tem de mais humano.

- Por favor . As chicotadas ...Eu as aceito.

- E o mais terrível. Somos os únicos seres sobre a terra que não podem viver sozinhos. Se Deus tivesse criado Masoch, teria que tirar sua costela para fazer de Sade. Sem anestesia, claro. O que quer dizer que também somos, à nossa maneira, símbolos da cooperação entre os homens.

- Senhor Marquês, não quero ser impertinente, mas...As chicotadas.

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
- O sádico e o masoquista são os únicos seres genuinamente sociais da Criação, pois precisam um do outro. Eles não se bastam. Não se satisfazem sozinhos. Sem o outro não são nada.

- Quero as chicotadas agora!

- Não.

- O quê?

- Não vou chicoteá-lo.

- Mas...Sr.Marquês! É seu dever de anfitrião.

- Não.

- Eu quero ser chicoteado. Eu preciso ser chicoteado. Eu exijo ser chicoteado.

- No meu chateau, só chicoteio quem eu quero.

- Mas...Isto é sadismo! Da pior espécie!- Obrigado, obrigado.

E o Marquês faz outra mesura, quase até o chão.

A Mulher que Quiser Ter Um Físico Desse...

Vai ter que malhar muiiiiiito !!

sábado

o ano virou
o tempo esquentou
alguém lembrou da cuíca
o carnaval gritou
dentro de mim
agora
meu soluço de tamborim
já ganhou a avenida
eu não entendo o porquê
de tanta batucada
se teu coração
nunca mais desfilou pra mim



(do livro "do açúcar à pimenta", de Charles Silva)

segunda-feira

Mário Quintana:



"Os que fazem amor,

não estão apenas fazendo amor.


Estão dando cordas

ao relógio do mundo".

domingo

.
ele diz que me ama, deseja

me quer para sempre, me pede

para ser sua mulher, me corteja

me faz confissões, me venera

me dedica músicas, me beija

implora meu sim, me calo

depois penso melhor, que seja

.

sexta-feira

"essa é a mulher que me arrebata,
me beija a boca e balbucia versos,
votos de amor e nomes feios

a única entre todas a quem dei
os carinhos que nunca a outra daria
essa mulher que a cada amor proclama a miséria e

a grandeza de quem ama
e guarda a marca dos meus dentes nela
essa mulher é um mundo!

uma cadela... talvez!
mas na moldura de uma cama,
nunca mulher nenhuma foi tão bela."

vinícius de moraes

Sempre ter boa educação:



Peçam licença.

Por favor.

Digam obrigado.

E não falem de boca cheia! rsrs

















sábado

Digamos que você não seja assim
tão seguro e inteligente como diz
vai ver me trai toda semana
levaria pra cama minha melhor amiga
faria intriga a meu respeito
falaria mal dos meus defeitos
garanto que não usa o sapato que dei

pode ser que você não goste
dos beijos que diz gostar
faz tudo só por fazer e me testar

vai ver não tem nem emprego
pede dinheiro emprestado
bate com o carro no meio fio
você não tem nenhum caráter
passou por mim e fingiu que não viu

vai ver você morre de medo
de se olhar no espelho de dia
seu saldo está no vermelho
seu cão morto de fome
e você com raiva da vida
digamos que você não seja solteiro
e eu entrei numa fria.

















Não morro de amores

por pessoas sem mistério

quando se é muito transparente

muito risonho e educado

é raro ser levado a sério

prefiro os mais silenciosos

os que abrem a boca de menos

os mais serenos e mais perigosos

aqueles que ninguém define

e que sempre analisam os fatos

por um novo enfoque

prefiro os que têm estoque

aos que deixam tudo à mostra na vitrine

sexta-feira

Homens que têm tudo

Estamos em um shopping em busca de algo que se não sabe direito o que é e muito menos onde encontrar: um presente para o homem que tem de tudo.

Quem são os homens que têm tudo?

Os muito ricos? Os que viajam com freqüência? Os que já passaram dos 40?
Sim, todos eles, e também os remediados, os que nunca botaram o nariz para fora do bairro e os que têm pouca idade.

Todos os homens do planeta, aparentemente, têm tudo. É a única explicação para o tormento que é encontrar um presente que seja original, útil e que eles gostem de verdade. Presentear os homens é uma das tarefas mais difíceis na vida de uma mulher.

Meia e gravata: essa dupla não é para qualquer homem, e também está condenada. Por mais que ele anseie pela tabelinha, ela só deve ser acionada em caso de desespero. Virou símbolo de falta de imaginação.

Camisa pólo. Ele deve ter de todas as cores. Usa para ir ao cinema, ir na padaria, trabalhar, almoçar fora, comprar jornal e ir a academia. Quando surge você com o pacote na mão, ele faz aquela cara falsa de surpresa e, depois de colocá-la em frente ao peito e constatar que você errou no tamanho, ele dobrará e guardará no lugar de sempre: lá onde estão as outras trezentas.

Pijama: Hoje em dia tem uns que são umas gracinhas e podem deixá-los bem sexy, caso ele colabore. Mas ao abrir o presente, as luzes se apagam...a casa ganha um ar de jubileu e o coitado, instantaneamente, fica grisalho e cansado da vida. Ano que vem, chinelos. E um cachorro.

Se ele não for de beber, menos uma opção. Mas se for...

Bebida. Ele já foi um sujeito normal: bebia de vez em quando com amigos. Passados alguns anos, começou a beber mais, e hoje é um porre atrás do outro. Você vai continuar dando bebida para o sujeito em questão?

Seria tãoooooooooooo mais fácil se os homens gostassem de colares, anéis, bolsas, lencinhos tigrados, guardanapinhos de papel, porta retrato, flores, trilha sonora de novela, maquiagem, meia calça, langeries,. Mas, não. É só meia dúzia de opções, tudo preto ou marrom, de preferência de couro para usar no pé ou no escritório. Merecem quilos de pesos de papel os chatos.

Ainda tem os tecnológicos de ponta. Um guia de viagem 4Rodas?! ...ele tem um navegador GPS no carro. Relógio??...ele tem no mínimo 2 celulares, sendo um rádio, outro smartphone Palm ou um iPhone! DVD?? ...eles são feras em ‘baixar músicas e vídeos no seu performático notebook, religiosamente . Aff!...

É claro que tem saída. Você pode dar um livro, por exemplo. Fininho, com letras bem grandes e dividido em vários capítulos, para que ele leia num momento de folga, ou seja, never!

Você pode dar uma cesta com quitutes variados: patezinhos, salgadinhos, azeitonazinhas, cajuzinhos, tudo aquilo que ele não consegue segurar com os dedos (risos).

Você pode dar uma gravura, um par de tênis, um Box do seriado ou cantor/a preferido dele, jogos de computador, garrafinha de whisky de bolso forrada em couro, tacos de golfe. Uau, que homem sofisticado.

Enfim, você pode dar o que quiser que ele, com certeza, não vai gostar. Homens só gostam de brinquedos. Brinquedões enormes, com 4 portas, 16 válvulas, motor potente, air bag e direção hidráulica. O resto eles têm.

quinta-feira

beije me as coxas
pálpebras, dedos, lóbulos
os dois

beije me os seios
um e outro, que são ciumentos
ambos

beije me os lábios
superior e inferior
os grandes e os pequenos
todos

sábado

Desejo um 2009 do jeito que a gente quiser!!

Esse texto que é da Patrícia Antoniete, poeta lá do sul, que escreve lindamente.

"Não se engane, meu amor, não se engane. A vida não passa. A vida fica, cada vez mais.
Sabe aquele sorriso de ontem, o menino chorando agarrado ao pai, a bomba de creme da padaria, a vez que mandaste o chefe à merda, o gemido de prazer, o gol perfeito, o sol sobre o mar e o vento com maresia, o anel perdido, a tarde de férias, o amigo morto, o cheiro do cabelo da primeira namorada, a irritação com o taxista, a cerveja gelada entre os amigos que não mais se encontraram, o dia do casamento, a palavra mais dura de todas, o porre de Ano Novo, o cigarro na janela sobre os telhados, o abraço no saguão do aeroporto, o bolo de Fubá da avó, o livro roubado da biblioteca, a gripe mal curada, a manhã de domingo, o café com pão quentinho, o assalto à mão armada, a nuvem em formato de cachorro, aquele poema inacabado, a covardia de não ter tentado, o amor impossível?

Fica. Tudo isso e todo o resto ficam.

A vida fica nos olhos, nas mãos, nas rugas nos cantos da boca, nos cabelos que aos poucos ganham as cores do tempo e dos invernos, nas pernas mais fracas, mais bambas, mais trôpegas e cada vez mais cansadas de levantar depois de cada tombo.

A vida fica cada vez mais nos pulmões e no peito, com rastros de gritos e gargalhadas, soluços, rancores, tristezas, nas costas fica a vida como cicatriz das asas arrancadas, dos punhais, no encurvar dos ombros que suportam a carga dos anos e das culpas, fica a vida, cada vez mais a vida, que nunca passa. Fica nos planos dentro da gaveta, trancados e cheirando a mofo, fica na boca com gosto de comida e riso, de beijos, das palavras que não queríamos ter dito, das palavras que não deveríamos ter deixado de dizer.

Não se engane, meu amor, não se engane. A vida não passa, não. A vida fica, cada vez mais, sempre e sempre mais.

Fica incrustada na pele que ganha marcas, que perde a cor, que fica opaca.

Fica nas artérias, nos lábios que enrugam dos carinhos e dos assovios, das músicas e orações desaprendidas, nos ouvidos que vão ensurdecendo de desouvir.

Fica nos pés tortos e calejados do andar incessante do mundo, no ventre que vai secando de desistências e recomeços, nos olhares cegos de desatenção e desmemória, nos braços enfraquecidos pela solidão construída palmo a palmo ao nosso redor, nas frustrações e nas canalhices, nas pequenas maldades debaixo das unhas, nas desconfianças mesquinhas atrás das orelhas, no amargo da língua cheia de ressentimentos.

A vida não passa, meu amor, não se engane. A vida não passa, não. Nada disso vai passar.
O tempo minora e ajeita, recobre a pele arrancada, mata o viço do brilho de outrora, mas a vida fica, sempre e cada vez mais, e se acumula e nos torna exatamente aquilo que fizemos e faremos dela. Exatamente.

Portanto, meu amor, tenhamos coragem.
Façamos com a vida o que queremos que ela faça de nós."

quinta-feira

Tudo o que você sabe sobre traição pode está errado

Abaixe a guarda e prepare o coração para ouvir sobre um dos temas mais explosivos da vida a dois


- Amor é uma vacina que imuniza a todos contra o vírus da infidelidade, certo?

Errado!

- Mas a traição não destrói a vida amorosa?

Bem, não é exatamente assim...


A ala masculina considera que a infidelidade faz parte de sua natureza poligâmica. Os homens podem amar a esposa e desejar outras mulheres sem grande conflito. Já as mulheres, tradicionalmente educadas para associar sexo e amor, consideram que traição só é possível quando não se ama mais o parceiro, e sim outra pessoa.

Dependendo do tipo de traição, as reações variam. Uma pulada de cerca eventual, além de ser mais difícil de ser descoberta, não cria um vínculo. Por isso, é mais fácil de perdoar, raramente abala um casamento estável. Já um caso de longo prazo mexe com o relacionamento oficial e também com a estabilidade psicológica do infiel”. Afinal, trair dá trabalho: haja fôlego para inventar desculpas e atender demandas emocionais e sexuais de duas pessoas ao mesmo tempo.

E a responsabilidade pela traição não é só do traidor, pois essa atitude geralmente está relacionada à complexa dinâmica da vida a dois. A fidelidade é um pacto que o casal tem que validar a cada momento, não apenas no dia do casamento.

Mas uma coisa é certa. Quando a verdade vem à tona, a relação estremece.

Quem ama de verdade pode trair, sim.

Mesmo que ame sua mulher, o homem justifica a infidelidade pelo desejo de novidade e aventura, porque surgiu a oportunidade, por crises pessoais ou no casamento. Já as mulheres dizem trair por sentir falta de carinho e atenção ou por achar que não são mais desejadas pelo marido. Há também aquelas que traem para revidar as escapadas do parceiro. Mesmo pessoas felizes no casamento às vezes traem por curiosidade, para testar o poder de sedução ou para chamar a atenção do cônjuge.
E outro motivo, que vale para os dois sexos: alguns traem para reviver aquela sensação de excitação do início do namoro. Por isso, é importante o casal investir sempre no erotismo.

A traição nem sempre é inevitável em relações de longo prazo

A receita? A base desses casamentos é a amizade e a cumplicidade. Os casais sentem que isso é especial, não querem se arriscar a perder por causa de uma atração sexual passageira. Existem etapas críticas que deixam os casamentos mais vulneráveis à infidelidade: nos dois primeiros anos, quando a paixão perde o fôlego; por volta dos dez anos, quando o sexo costuma ficar mais morno; e em torno dos 20 anos, sobretudo se o casal não resolveu bem crises anteriores.

Não há um certo tipo de pessoa que trai.

Não há um perfil único, pois a ocasião também faz o infiel. Quando a oportunidade se apresenta, as pessoas mais mpulsivas podem ter dificuldade de resistir ao desejo. Por outro lado, há um tipo com maior predisposição. É o caso da figura muito narcisista, que tem dificuldade de criar vínculo afetivo e é movida pela necessidade de testar continuamente o seu poder de sedução. Seja homem ou mulher, em geral é alguém com auto-estima bastante comprometida, que procura se afirmar por meio das conquistas.

A traição não destrói o casamento

Na maioria das vezes o casamento continua, seguem juntos. Porém, permanecer na relação não é necessariamente sinônimo de felicidade conjugal, muitos não se separam por conveniência, por causa dos filhos, para não dividir os bens. “Na prática, vivem divorciados emocionalmente. Apenas alguns casais superam a traição e faz dessa experiência uma alavanca para melhorar o casamento. São aqueles que conseguem mudar o padrão do relacionamento: descobrem o que os afastou e se reaproximam, passam a cuidar mais da relação.

O parceiro traído nem sempre sabe que isso está acontecendo

Até porque nem todo mundo quer esclarecer a questão. Boa parte dos homens diz preferir não saber se a mulher trai. Desde que ela pareça fiel, para eles está tudo bem. Já as mulheres, buscam o tempo todo provas da fidelidade ou infidelidade do marido. No entanto, ainda que captem sinais, tanto elas quanto eles relutam em admitir a situação.
Dá medo de encarar a verdade. Mesmo quem sente que há algo errado precisa passar por um processo interno para admitir. E há quem ache mais confortável fingir não saber.

Homem trai mais do que mulher

Sim.
Há controvérsias sobre quanto a mais.

Meu nome..ninguém tem...será eu, ninguém??

Outro dia, me dei conta de que não conheço nenhuma Walcléa. Nem no meu tempo de colégio, nunca tinha na minha classe. Nunca foi um nome popular como Andrea, Carla, Claudia, Rosana as campeãs absolutas de ocupação de espaço nas listas de chamada. Havia muitas Elianes também. E Márcias. Não sei onde foram parar aquelas colegas – Nenhuma xará! Não há nenhuma até hoje em minha volta.

Tornei-me uma Walcléa solitária. Uma única Walcléa.
As novelas de TV estão cheias de Helenas, Lúcias e Marinas . Walcléa que é bom, nadica de nada.

Em busca de uma Walcléa perdida, fiz uma pesquisa no Google, digitei apenas Walclea, assim mesmo, sem acento para ver quem aparecia...Sem nenhum sucesso na busca.
Meu nome não está com nada mesmo.

Parti para segunda inserção.
Vamos em frente: com acento, agora. Walcléa
Cheguei, então, ao site da prefeitura de.... . Meu Deus, onde fica isso? ....

O segundo da lista do Google nome foi uma surpresa: Eu também estou lá na pesquisa do Google.

Mas, peraí, como fui parar na internet?

Cliquei para ver o que acontecia.
O resultado foi esse blog, uma postagem que assinei meu nome.
Resultado foi frustrante.
Em outras palavras: meu nome é ninguém :/

quarta-feira

Metáforas para o rancor

Não adianta fazer metáforas para compreender o rancor inato de alguém.

Só há rancor onde houve história e, se houve uma história, houve também leveza...

No último vendaval, uma árvore caiu na rua, despencando grotesca e sem amparo, mas algumas

folhas desgarradas cairam leves, pousando nela, depois.

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quinta-feira

Pequeno recado


Quando você se aninhou perto eu dessa vez, pensei...tenho para oferecer o meu carinho e alguma poesia.
Venho tentado fazer isso, te dar, te entregar o que vens buscar. Com minhas mãos, com minhas palavras, quando podes vir, quando queres ganhar.

O bem que isso me faz, isso eu sei.
Algum bem isso te traz ou não estarias vindo receber.

É natural acontecer que um de nós venha querer alguma coisa mais, e que um de nós ganhe do outro algo que nem mesmo queria receber. Ou peça o que o outro não tem pra entregar.

Quando isso acontece (e acontece várias vezes) é que se instala entre duas pessoas aquilo que as faz se machucarem, se desentenderem, sem saber o que fazer com aquela coisa que o outro entregou sem que se tenha pedido, ou com aquilo que não entregamos porque não tínhamos pra dar.

Assim sendo, meu encanto
preciso te perguntar a resposta que nem sei se tens para dizer:

diz o que que é que você quer de mim, saber isso é o que eu quero agora de você.
O resto, lá fora, não tem importância alguma neste momento, pois o que importa do mundo está aqui dentro, entre a tua mão e a minha.

No entanto, doce poesia, se não é claro o que queres de mim, se não tens como explicar o que de mim queres, façamos o seguinte:

entre nacos de silêncios e gemidos, façamos o amor do jeito mais intenso e leve que nos seja permitido alcançar.
Do jeito mais bonito que somos capazes.
Então, o mundo irá parar com todas as suas máquinas e quinquilharias, para escutar o que nós dois temos a dizer.

Pode ser, meu poema?


Mário Pirata
Poeta & brincadeiro - um marmanjo desajeitado, descatador de caramujos, descascador de sonhares - mais ou menos um encantador de histórias, um falador/fazedor de poemas.




Hipotireodismo

Essa doença vai

miNANdo

a minha

von-ta-de,

a minha

disssssssposição,

de
va
ga
ri
nho...

É um horror!!!



Sintomas do hipotireodismo:

  • pele seca
  • unhas quebradiças
  • constante queda de cabelo
  • dificuldade de dormir e depois de dormir acordar várias vezes durante a noite
  • dores de cabeça
  • irritabilidade
  • angústia, sensação de estar deprimida
  • dificuldade de perder peso e muita facilidade em ganhar
  • necessidade de dôces
  • cansaço constante
  • falta de energia

Synthroid é um remédio p/ hipotireodismo, que eu tenho que tomar durante all my lifetime..... Forever and ever.

Serve para dá uma certa equilibrada nos sintomas... Aff! :/

quarta-feira

AS AMARRAÇÕES PERFEITAS PARA CONTROLAR (OU NÃO) O DESEJO

Ninguém sai impune à realização dos próprios desejos. Ainda bem. Há dias em que a gente quer ser bem castigadinha. Cá entre nós, que graça tem bancar sempre a boa moça?!
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Quando ele entrou no quarto, camiseta branca colada ao corpo, jeans descolado, olhos de lince percorrendo minhas colinas, logo vi que a noite seria insana. Ele tinha a segurança dos veteranos num semblante de novato, a combinação exata dos gestos doces com a frieza do carrasco. Pendurou no cabide a jaqueta de couro que trazia jogada sobre o ombro. Do bolso da mochila, puxou um cigarro. Acendeu com um isqueiro prateado, numa pequenina chama a gás. Deu um trago profundo. Recostou-se, um pé no carpete, o outro no grande espelho da parede e, numa pose displicente e ereta, me analisou. O silêncio e a fumaça era tudo o que havia entre nós

Sentada numa poltrona, a três metros de distância, com uma taça de vinho na mão e a curiosidade entorpecendo-me, esperei-o fumar. Um ar de mistério pairava entre a intensidade das coisas que ele não dizia e os movimentos que ele deixava de fazer. Quieto e sorrateiro. O que ele estaria arquitetando? Ele era de poucas palavras. Também, com aquela boca apetitosa, quem pensaria em conversar? Tivemos toda falta de pressa do mundo para nos observarmos. A cada tragada, nossas retinas entranhavam-se uma na outra, mais e mais. A cada gole, passeávamos um pelo corpo do outro.

Gostei desse jogo de entranhamento e estranhamento inicial. Deu uma quebrada na dimensão do tempo. Um minuto de silêncio entre quatro paredes com um desconhecido parece uma eternidade. Você entra numa espécie de transe, as sensações tornam-se tangíveis, o cheiro condensa, os ouvidos aguçam-se. A pele sente a carícia do olhar e, sobretudo, as chibatadas rasantes que pequenos gestos, como ondas, propagam pelo ar.

Ele apagou a guimba no espelho e jogou-a no chão. Estava escrito em seu rosto que ele sabia o que fazer. Moveu-se em minha direção. Um espasmo aflito desprendeu-se de mim. O simples descolar de seus lábios revelou-me um abismo de perdição. De súbito, meu espartilho carmim encolheu. Um tesão avassalador queimou-me. A fumaça já não era de cigarro: era meu peito em chamas. Na penumbra daquele quarto de motel, ferormônios piscaram feito vaga-lumes. Fechei os olhos.

Dedos-formiguinhas deslizaram sobre a minha mão, antebraço, ombro. Próximos ao pescoço, saltaram de pára-quedas e recomeçaram o percurso, desta vez ziguezagueando entre os poros arrepiados. Na terceira vez, fui catapultada do prazer ao susto: um tapa seco estalou na minha cara. Saí do transe, abri os olhos. Ele estava face a face comigo. Ajoelhado entre as minhas pernas, puxou-me o maxilar com delicadeza. A língua contornou o desenho da minha boca, lambeu os cantinhos, insinuou-se sem entrar. Anestesiada, não reagi quando, sem pedir licença, o músculo morno invadiu-me a garganta.

Não me desnudou. Soltou as quatro presilhas, arrancou minha calcinha, abotoou novamente. Fiquei com um vão de pele e carne macia entre a meia de seda e o corpete. Um espaço que ele explorou com maestria. Mãos desinibidas me abriam, fechavam, tateavam contornos, coxas, panturrilhas. Abocanhadas e mordidas redesenhavam a circunferência do meu quadril. As esquinas lisinhas das virilhas. A profundidade da minha caverna. Da minha alma.

Forte feito um touro, ergueu-me nos braços e me depositou sobre a cama. Me admirei com a facilidade com que me carregou no colo. Não sou do tipo mignon e muitos homens mais encorpados já suaram nesse intento. Ele nem pestanejou. Força bruta: eis um ponto importante a ser avaliado se porventura e loucura da minha cabeça eu estivesse pensando em me deixar imobilizar por ele. É óbvio que eu não deveria. E não recomendo. Shibari, a técnica japonesa de amarrações com cordas, requer cumplicidade e confiança total. É um alto risco praticá-la com um desconhecido. Mas, ah, se seguíssemos a razão,sexo perderia a metade da graça

Ser marionete não me saía da cabeça. Tem dias que estou a fim de servir. Às vezes gosto que me digam o que fazer, que me provoquem, inclusive que me imponham o que devo querer. Tortura sem dor é tão bom. Existe coisa melhor do que uma técnica com estimulação erótica constante e crescente, em que você fica impossibilitada de se safar e, quanto mais se debate, mais tesão sente? Não há. O shibari é imbatível. Por isso a fama, o reconhecimento, a legião de adeptos. E a minha insanidade em ceder-me sem limites

Ele nem perguntou. Sacou um bolo de cordas da mochila e, enquanto me desembrulhava do espartilho, me arrematava com amarras. Passou três voltas sob os meus seios, três acima e, com uma terceira corda, amarrou na vertical as outras duas, torcendo bem, deu a volta no meu pescoço, como um top frente única e finalizou nas costas. Achou confuso? Você não imagina as outras seqüências que ele criou. A noite entrou pela madrugada. O moço mostrou-se um artista. Meu ego como musa inspiradora foi pra estratosfera. Se é que algum dia tenha ficado abaixo disso.rs

Ao terminar, acendeu outro cigarro. Me admirou. Tirou fotos. E a camisa. Até então, só eu estava nua. Ele, compenetrado, me trabalhou como a uma obra-prima. Deixou-me inteira amarrada à cama, cordas comprimindo pontos "G", descomprimindo gemidos. De quatro, crucificada em diagonal, fiquei vulnerável a qualquer intenção dele, boa ou má. Ele era bonzinho, aliviou-me nós apertados em troca de beijos. Ele foi mau:tirou a calça. Mamãezinha. Foi nessa hora que exclamei "misericórdia". O músculo morno a invadir-me a garganta agora era outro.

Mal pude me defender. Fui abusada em todos os orifícios. Abuso é uma forma carinhosa de chamar aqueles arrombamentos. Estocadas violentas, lentas, generosas, nada gentis, carícias eletrizantes, palmadas rápidas, uma verdadeira aula de golpes orientais. Golpes baixos. Alguém tem dúvida que vou virar freguesa? Devia ser geneticamente proibido alguém nascer com tantos centímetros quando muitos sobrevivem com tão poucos. Refiro-me à grossura. Ao comprimento, meu bem, só vendo pra crer.

Agora estou aqui, numa banheira de salmoura para curar as feridas, tomando um chá de melissa, degustando os momentos vividos. Acredite você ou não, só no final da sessão me dei conta: Ele não emitiu uma sílaba sequer. Partiu com suas cordas, seus olhos de tesão e minha vontade de quero mais. Foi embora levando o silêncio, deixando-me sem palavras.

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http://msn.bolsademulher.com/amor/materia/shibari/45752/1/

A água é submissa, mas tudo conquista.


A água extingue o fogo ou, diante de uma possível derrota, escapa como vapor e se refaz.


A água carrega a terra macia, ou quando se defronta com rochedos, procura um caminho ao redor.


A água corrói o ferro até que ele se desintegre em poeira; satura tanto a atmosfera que leva a morte o vento.


A água dá lugar aos obstáculos com aparente humildade, pois nenhuma força pode impedi-la de seguir seu curso para o mar.

A água conquista pela submissão; jamais ataca, mas sempre ganha a última batalha..."


segunda-feira

A Dor É Inevitável



* por Carlos Drummond de Andrade.



Nossa dor não advêm das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.

Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que os fez companhia por um tempo razoável, um tempo feliz.

Sofremos por quê?

Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto e não tivemos, por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos. *Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.

Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas as horas livres que deixamos de ter pra ir ao cinema, pra conversar com um amigo, pra nadar, pra namorar.

Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam, todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.

*Como aliviar a dor do que não foi vivido?

A resposta é simples como um verso:
**Se iludindo menos e vivendo mais!

A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que esquivando-nos do sofrimento perdemos também a felicidade.

quarta-feira

Veríssimo - 20/08/2008

Aulas de Inquietação

O Mário Quintana dizia que as guerras eram um modo prático de se aprender geografia. No noticiário das batalhas e dos territórios conquistados e perdidos se descobria o nome de lugares até então desconhecidos, e alguns se tornavam não apenas conhecidos com históricos, dentificados para sempre com o feito guerreiro que ali se desenrolava – No atual noticiário sobre a guerra em torno do prende, solta, prende, solta, algema, não algema do Daniel Dantas estamos mesmo que não todos tendo aulas diárias de jurisprudência. Mas, como os locais insignificantes que ficaram famosos só por serem o cenário de alguma batalha decisiva, os nomes de processos e recursos judiciais que ouvimos no debate retórico soam mais importantes e imponentes do que são, e ensinam pouco. O vocabulário esotérico só nos inquieta. Pois a guerra retórica é sobre diferentes interpretações do que é legal, constitucional e justo – tudo que a gente imagina já decidido e gravado em pedra.

Discute que a polícia pode ou não pode poder fazer e até o que um presidente do Supremo Tribunal Federal pode ou não fazer, e a gente aqui pensando que isso estava combinado há uns cem anos mais ou menos.

Enfim, a máxima do Quintana não se adapta ao noticiário dessa guerra sobre atribuições e métodos no nosso sistema judiciário.

Com essa guerra só se desaprende.

quinta-feira

MISSIVA

Photobucket

Essa greve dos correios me fez lembrar da minha ansiedade quando, num tempo nem tão remoto assim, enxergava ao longe o carteiro entrar na minha rua. Vibráva com iminente chegada das cartas de amigos, parentes e ...namorado, principalmente de namorados. Talvez eu devesse incluir aí os ex-namorados também.

Hoje, uma greve atrasa a entrega de coisas consideradas mais importantes, como contas, documentos e encomendas materiais, ou seja, correspondência anti-sentimental, já que cartas pessoais, escritas a lápis ou caneta, viraram peças de museu. É um recurso utilizado apenas por homens e mulheres que não possuem um computador em casa e no trabalho, e que nem cogitam entrar em num cybercafé.

Outro dia recebi uma carta, uma não. Duas! Uma do interior de Minas e outra de Canoas-POA. Cartas escritas a mão, e fiquei sem ação: como faço pra responder? Ora, bastaria pegar um papel, escrever, envelopar, selar, ira até uma agência dos correios e remeter – me lembro como faz. No entanto, para quem se acostumou com a instantaneidade do email, enviar uma carta se transformou numa via-crúcis!!!

Mesmo rendida à correspondência virtual, que dinamiza e facilita de forma estupenda a vida da gente, sigo cultivando uma certa nostalgia pela carta, aquele calhamaço em que depositávamos nossas ridículas palavras de amor, chegando a cometer poemas e decorá-los com ingênuos corações no lugar dos pinguinhos dos is. É, eu fazia isso.

Nas cartas em que contávamos detalhes sobre alguma viagem, contando da nossa vida em outra cidade, um relato minucioso do cotidiano modificado, dos novos hábitos e das surpresas da troca de rotina. Cartas com fotografias em meio às páginas, cartas com pétalas arrancadas afoitamente de um jardim , quando a viagem aprecia ser mais longe que agora, já que existem internet e webcam encurtando as distâncias. Temíamos voltar para casa antes mesmo de chegarem as tais cartas.

A carta era um abraço. Era comunhão.

Uma prova inquestionável da importância que o destinatário tinha para o remetente. O email até permite isso tudo, mas é tão fácil digitar e enviar que o feito fica sem pompa, a sinceridade parece gratuita, a ligeireza extingue a dedicação que o ato de escrever merece.

Carta, ao contrário, é um esforço. E o esforço dignifica.
 
Suave